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April 14, 2014
April 14, 2014

Portugal: Carta aberta ao primeiro-ministro

Source: Jornali  Category: Letters from home
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Portugal: Carta aberta ao primeiro-ministro

Estamos fartos de ver emigrar os nossos familiares, direitos e sonhos. Vamos continuar a lutar para que sejas o próximo a partir

Passos, escuta… o meu nome é António Mariano, tenho 55 anos de português, 35 de estivador e 18 de sindicalista. Fomos eleitos – no meu caso em eleições directas, no teu, em indirectas, foste escolhido por uma maioria dos deputados eleitos para a AR – para representar um determinado universo.

Represento quase 400 estivadores que escolheram a minha equipa para estar à frente da nossa centenária associação de classe, constituída em 1896, para representar os nossos interesses individuais e colectivos bem como o daqueles que no futuro irão desempenhar esta profissão de apaixonante risco. Tu representas os mais de 10 milhões de cidadãos, em que os estivadores se incluem. Tudo o resto é um mar de conflitos que nos separam, tão diferentes são os modelos de sociedade e os valores que defendemos.

Começando pelos valores em que baseias a tua formação, realço a Mentira que encarnas, que tão bem cultivas, que atravessa toda a tua existência. Olho para o teu exemplo e dou por mim a pensar como poderia continuar a desempenhar o cargo para o qual fui eleito se estivesse constantemente a mentir aos meus sócios, a dizer-lhes hoje o contrário do que lhes tinha afirmado ontem, a faltar às promessas de música celestial da última campanha eleitoral.

Posso especular sobre os tremendos problemas de consciência que me assaltariam a não ser que estivesse ao serviço de interesses opostos aos que me elegeram, se me tivesse vendido. Felizmente os estivadores nunca me iriam permitir tal comportamento e, no mínimo, já me teriam mostrado a porta de saída.

Tu manténs-te agarrado ao poder mas imagino que terás sonantes razões para isso, a avaliar pelos teus gurus, conselheiros e a restante turma que te rodeia. Foram essas más influências, aliadas aos grupos económicos que te patrocinam e dominam o sector dos portos, que estiveram na origem do assalto legislativo e do clima de impunidade face às reiteradas violações legais e contratuais a que temos estado sujeitos.

Como podes agora verificar, pelo acordo que assinámos no passado dia 14 de Fevereiro com os patrões de Lisboa, aquilo que de mais significativo alcançámos foi a reintegração de 47 estivadores despedidos. Essa nossa luta deveria ser a tua, a luta por empregos de qualidade, com a dignidade que também devias reconhecer aos portugueses, por políticas de emprego real que evitassem a sangria dos nossos jovens e menos jovens para rios de desemprego, emigração, desespero e morte.

Não há dia em que não fales no esforço dos portugueses, tal como não há dia em que não os desrespeites. Nós, trabalhadores portuários, mesmo durante um longo processo de luta, nunca deixámos de garantir as importações e as exportações de que o país precisa. O que fizeste tu para lá de tudo dificultar? Haverá português com pior índice de produtividade? Mesmo dando de barato que para ti a economia são as empresas quando, para mim, são as pessoas. Não conheço alguém que mais tenha destruído a economia nacional, na esteira aliás de um teu antecessor, cúmplice desta tua governança.

A fúria com que levas a cabo esta agenda ideológica é de tal maneira radical que estás incapaz de ver as consequências para a vida das pessoas. No Porto de Lisboa, por exemplo, que é a realidade que melhor conheço, a irracionalidade da lei dos portos, que aprovaste contra tudo e contra todos, levou 47 estivadores a serem indevidamente despedidos, quando o seu trabalho era crucial para garantir o melhor desempenho do porto. Os patrões já o reconheceram e comprometeram-se a reintegrá-los a todos, mas nada apaga o sofrimento de estar um ano sem trabalho. Terás ideia do que isso significa? Bem sei que só te preocupa a performance das exportações – realidade que deste modo prejudicaste -, mas deixa-me dizer-te que a tua intransigência tem um tremendo impacto na vida real das pessoas. O desemprego é quase sempre a causa de outros avatares, do divórcio à depressão, de desistir de ter filhos à perda da habitação, da falta de horizontes ao escape ilusório da emigração.

Passos, escuta… estamos fartos de ver emigrar os nossos familiares, os nossos direitos, os nossos sonhos, e vamos continuar a lutar para que rapidamente entendas que o melhor para todos é que sejas tu, o teu governo, os teus banqueiros, os próximos a partir. Ninguém deixará cair uma lágrima quando tu zarpares. Essa viagem é hoje a condição para as pessoas voltarem a ter esperança num futuro melhor. Não bastará, é certo, mas tudo recomeçará nesse dia inicial, inteiro e limpo.

Presidente do Sindicato dos Estivadores, Trabalhadores do Tráfego e Conferentes Marítimos do Centro e Sul de Portugal

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