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February 14, 2013
February 14, 2013

Cumprimentos desde a democracia ateniense

Author: Dimitris Dalakoglou Translator: Sara R. Romo
Source: Open Democracy  Categories: Antifascism, On the crisis
This article is also available in: enesfrel
Cumprimentos desde a democracia ateniense

A ascensão da Golden Dawn como uma força política nas ruas de Atenas forneceu o Estado grego a oportunidade de adotar uma agenda xenófoba e vigorosamente eliminar as ameaças à austeridade do governo. A detenção e tortura de grupos de migrantes e opositores políticos na cidade, põem seriamente em causa a credibilidade futura da democracia grega.

Ao longo dos últimos últimos meses de 2012, os meios de comunicação gregos deixaram de falar sobre os ataques neo-nazistas nas comunidades migrantes que enferrujaram Atenas por mais de um ano. No entanto, em meados de janeiro 2013 um ataque garantiu a atenção dos meios de comunicação. No distrito Petralona de Atenas, dois homens gregos numa moto apunhalaram um imigrante paquistanês até a morte. Graças a uma testemunha ocular os dois assassinos foram presos poucos minutos depois. No entanto, existe uma evidente disjunção entre as detenções pouco frequentes ligadas à violência racialmente motivada, e a evidência paradoxal de assédio diário e violência dirigida às comunidades migrantes na cidade. O medo de represálias e as ligações conhecidas entre a polícia grega e grupos de extrema direita operam para dissuadir as vítimas e testemunhas oculares de reportar crimes por motivos raciais, ocultando, assim, as estatísticas sobre a violência racista em todo o país.

Panfletos pré-eleitorais do partido neo-Nazi grego Golden Dawn (GD) foram encontrados na casa dum dos assassinos, além de imagens de Michaloliakos, o líder do GD. A filha do Michaloliakos, um proeminente membro do partido dos pais, tinha sido arrestada por um ataque racista semelhante no início de 2012. Ela também participou numa moto “patrulha” ferindo gravemente um migrante não muito longe do bairro Petralona.

O impulso atual da extrema-direita na Grécia pode ser entendido como reflexo de um governo cada vez mais autoritário e reacionário. Desde agosto de 2012, centro de Atenas foi submetido a uma operação policial fundamentalmente racista, de estilo pogrom chamado ‘Xenios Zeus’ (nome do antigo deus grego da hospitalidade [!]). Desde a sua inauguração, a operação tem detido mais de 60.000 migrantes. No entanto, dentro do contexto atual de ataques sobre migrantes por neonazistas tais brutalidades policiais, assim como a criminalização das comunidades migrantes parece contido: afinal, esfaquear as pessoas de cor nas ruas é muito pior do que prendê-los e detê-los sem razão.

Golden Dawn honors the memory of the Imia incident heroes in Athens

Marcha do Golden Dawn em Atenas. Nicolas Koutsokostas / Demotix

A ascensão da Golden Dawn

Assim, a ascensão para a proeminência da Golden Dawn como uma força política tem tido uma série de benefícios para o cada vez mais impopular governo grego.

Dois dos maiores jornais do país, no mesmo dia, em setembro de 2012, publicaram dois artigos com títulos muito semelhantes, fazendo um argumento quase idêntico com a oportunidade que a Golden Dawnforneceu a Estado grego. Em suma os artigos sugerem que o surgimento da Golden Dawn fornece uma oportunidade para o Estado para eliminar os “dois extremos” da política grega. Pode-se sugerir que aqueles que os meios de comunicação pró-governo chamavam “extremista” são qualquer um que critique ou se opunha à política do governo. Como tal, nomear a Golden Dawn como “extrema” é enganoso, uma vez que o governo e GD compartilham vários objetivos. No entanto, bastante simplista a “teoria dos dois extremos” sugere que a atual crise política e social pode permitir às autoridades para visar os grupos de esquerda radicais, e os anti-autoritários, quens, entre outras coisas, desenvolvem uma actividade anti-nazista em todo o país.

Em resposta perfeita aos artigos de jornal, a polícia lançou uma operação de grande escala visando tais movimentos sociais em todo o país, numa operação que abriu espaço para prosperar tanto politica como fisicamente aos grupos neo-nazistas como GD.

No final de setembro de 2012 durante uma reunião antifascista de motocicletas no centro de Atenas, houve confrontos com neonazistas, e a polícia interveio imediatamente para prender 15 anti-fascistas e torturar os militantes nos centros da polícia. Este foi o início da atual onda que situa como alvo o movimento anti-nazista.

Villa Amalias

De repente, em Dezembro de 2012 a Villa Amalias, uma casa agachada, foi atacada e fechada pela polícia, que fez várias detenções. Villa Amalias era antigamente uma escola, e esteve abandonada durante duas décadas antes de que os agachados a ocuparam em 1990. Os squatters anarquistas trabalharam para conservar o edifício neoclássico e, mais importante, para abri-lo à comunidade como um centro social auto-organizado. A Villa tinha uma pequena sala de concertos, onde em grande parte foi moldada a cena Punk ateniense dos anos 1990. Ele também abrigava uma prensa de impressão dirigida por Rotta Coletiva. Rotta tem impresso muitos dos cartazes políticos que cobrem as paredes do centro de Atenas. Mais recentemente, os agachados anti-fascistas, juntamente com as comunidades migrantes têm-se organizado para proteger as áreas de Atenas dos ataques neo-nazistas.

Demonstration in support to villa Amalias arrestees - Athens

Manifestação em apoio à Villa Amalias. Maximilien Nguyen / Demotix

No dia 9 de janeiro de 2013, os agachados re-ocuparam o prédio por algumas horas, antes da políciadas Forças Especiais novamente despejaram o agachamento e prenderam os 92 ocupantes, acusando-os de crimes por ter emos rostos cobertos. De propósito, ninguém do grupo tinha coberto o rosto.

A lei que acabou por converter o facto de cubrir o rosto num crime entrou em vigor há alguns anos , como uma resposta ao crescente protesto público. Uma das principais táticas e os anti-protesto da Polícia grega tem sido o uso em massa de fortes gases lacrimogêneos, geralmente lançados no meio da multidão, exigindo aos manifestantes cobrir os seus rostos quando assistirem a demonstrações. Desta forma, a criminalização de cobrir o rosto é implicitamente a criminalização de todos os protestos públicos. Para piorar as coisas, os oficiais das unidades anti-protesto regularmente deram testemunhos falsos sobre manifestantes detidos, de modo que quase todos os presos durante os protestos nos dias de hoje são acusados de crimes com base nesta chamada lei do capuchão (Koukoulonomo).

Skaramanga

Poucas horas depois do último despejo de Villa Amalias, na tarde do 9 de janeiro a polícia, numa demonstração pública de poder, expulsou outro grande agachamento ateniense central, o Skaramanga, a poucos quarteirões de distância da Vila. Skaramanga tem uma história diferente que a Villa Amalias, é uma descendência histórica da revolta de dezembro de 2008. Também dirigido por um coletivo anti-autoritário, Skaramanga teve uma rica biblioteca e quartos amplos, onde foram organizados palestras, exibição de filmes e outros eventos. A casa também abrigava a única parede de escalada artificial no centro de Atenas, ao mesmo tempo que eram fornecidas semanalmente classes de ioga e de artes marciais, por mencionar apenas algumas das atividades, tudo isso, é claro, grátis. Às vezes, os squats organizavam eventos de benefícios para arrecadar dinheiro para a manutenção do edifício, mas de resto as suas atividades eram localizadas fora do ámbito comercial. Skaramanga também era uma parte da infra-estrutura anti-nazista local, pois seus moradores e participantes tomavam parte constantemente na actividade anti-racista.
Em janeiro de 2013, poucos dias depois de estas batidas policiais, 10 mil pessoas marcharam no centro de Atenas, em solidariedade com os squats e as 92 pessoas presas durante o último despejo de Villa Amalias.

Dois dias depois, a polícia invadiu um agachamento ateniense mais central, Lelas Karagianni. Enquanto que “filtradas” informações da polícia revelaram os planos do governo para expulsar 40 desses projetos auto-organizados (agachamentos) em todo o país, Lelas acabou sendo levado de volta pelos posseiros.

Todos os três squats atenienses têm sido alvo fisica e verbalmente pelo Golden Dawn várias vezes desde que o Partido apareceu nas ruas da cidade no início dos anos 90. O Governo, ao derrubar principais redutos anti-fascistas na cidade, no entanto perseguia e detia os imigrantes, em certo sentido, está a adoptar diretamente os planos da agenda da Golden Dawn, ao tempo que normaliza e legitima o autoritarismo e os ataques racistas na cidade.

Bombas, neoliberalismo e neo-nazismo

Dentro desse clima de tensão política, no domingo 20 de janeiro de 2013, uma bomba explodiu no Mall, um dos maiores centros comerciais do concelho. Além disso, alguns dias antes uns desconhecidos abriram fogo nos escritórios da Nova Democracia, o partido no poder na coalição governamental. O Mall, segundo os moradores locais (que fizeram campanha contra a construção durante uma série de anos), é um dos maiores escândalos pré-olímpicos. A sua construção ignorou o planejamento e os regulamentos. O processo judicial ainda está pendente nos tribunais. O Mall tem funcionado em estase, no entanto, desde há quase uma década.

O governo correu para explorar os dois hits e sugeriu publicamente que o segundo maior partido parlamentário (a Coalição da Esquerda Radical), devido à sua crítica anterior da construção do Mall, estavam indiretamente ligados ao ataque. Reivindicações similares foram feitas em referência aos ataques contra os escritórios de Nova Democracia. Assim, depois de migrantes e anarquistas, a esquerda institucional tornou-se o novo “extremo” alvo de uma coalição de governo cada vez mais autoritária.

A greve do Metro

Os sindicatos de trabalhadores também têm sido alvo por parte do governo. Durante o final de janeiro de 2013, vários sindicatos estavam em greve com os trabalhadores da indústria do metro durante oito dias. As suas demandas não eram extravagantes: eles foram forçados a aceitar uma redução significativa dos seus salários, como a maioria dos funcionários públicos e pensionistas, que perderam mais de 40% de sua renda nos últimos dois anos. Mas há algumas excepções, como as unidades anti-protesto da polícia, cujos salários têm sido até agora blindados. Após oito dias de greve essas unidades policiais protegidas invadiram o depósito de metro em Sepolia às quatro horas da manhã, quebrando a greve dos trabalhadores do Metro. Basearam a sua acção num decreto emitido em 1974, nos primeiros dias da “democracia” pós-ditatorial, segundo o qual os grevistas podem ser convocados para voltar ao seu trabalho, se se emitirem avisos. Se eles recusarem, podem ser presos e acusados.

Durante os protestos em Atenas nos últimos dois anos houve um slogan muito popular: “Pão-Educação-Liberdade; a Junta não terminou em 1973″. Isso é verdade, a ditadura de extrema-direita dos coronéis não terminou em 1973, mas em 1974, quando o governo militar da Grécia tentou um golpe de Estado em Chipre, permitindo ao exército turco invadir a ilha. No entanto, o slogan atual refere-se a 1973, pois em novembro 1973 uma revolta popular levou o slogan “Pão! Educação! Liberdade!”). A sua repressão violenta significou o início do colapso da ditadura.

Hoje, a crise proporcionou ao Estado a oportunidade ideal de tirar à sociedade o direito de acção industrial, direitos de protesto público, direitos a um salário digno e até mesmo o direito de manifestar alguma oposição ao governo! Além disso, uma coalição de aparatos estatais e gangues de rua neo-nazistas, rotineiramente tomam como alvo comunidades de imigrantes, anti-fascistas, centros sociais e à Esquerda.

É certo que esta escalada do autoritarismo influencia as percepções locais e internacionais de que o sistema político grego está a mexer-se em direção a algo que faz lembrar à ditadura militar. Contudo, ao mesmo tempo o regime contemporâneo é muito mais elaborado do que os sistemas anteriores. Afinal, não houve golpe, e tanto a Golden Dawn como os actuais partidos da coalição governamental foram votados por milhões de eleitores no verão de 2012 para acceder ao poder. Em princípio, hoje estamos a lidar com um regime político que é injusto e extremamente violento, ainda que permanece supostamente democrático. Um fenômeno político que obriga a questionar as relações entre a democracia, o capitalismo e as políticas da extrema-direita.

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