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November 28, 2012
November 28, 2012

Miterrand ou Kaldor?

Author: Yiannis Varoufakis Translator: Vera Pinheiro
Source: Lifo  Category: On the crisis
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Miterrand ou Kaldor?

O ponto de vista do economista Nicholas Kaldor, preconizando que uma união monetária ou económica da Europa seria um erro sem uma união política equivalente, parece estar a ganhar terreno a cada dia que passa.

Os Estados Unidos são o resultado de crises sucessivas. Sem a crise de débito causada pela Revolução Americana, sem confronto entre o Norte e o Sul pela transferência dos rendimentos do Sul rico para o Norte pobre, sem que as bolhas implodissem quase a cada 8 anos no séc. XIX (quando os astutos empresários convenceram os investidores a colocarem tudo o que tinham nas companhias ferroviárias), sem a bolha de 1920 que mais tarde causou a grande depressão de 1929 e a criação de um verdadeiro governo federal sob a ordem de Roosevelt em 1932; sem todos estes desastres, os Estados Unidos nunca teriam avançado até ao grau de consolidação que mais tarde lhe permitiu tornar-se uma superpotência mundial.

Muitos de nós gostariam de acreditar que algo semelhante está neste momento a acontecer na Europa: estamos a experenciar a crise, estamos a cometer erros atrás de erros, mas eventualmente existirá um Hamilton ou Roosevelt europeu que proporá uma série de princípios que todos nós iremos abraçar, criando assim, do nosso lado do Atlântico, os nossos próprios Estados Unidos da Europa.

De facto, esta era a linha de raciocínio dos criadores da Eurozona. Não se desiludiram. Sabiam que a moeda única que estavam a projectar se baseava numa fundação frágil. Tão frágil que, face a uma primeira crise, começaria a colapsar. Já contei a história de como, na reunião em Bruxelas entre Miterrand e Delors, este último (assim como o Presidente da Comissão Europeia) tentou convecer o então Presidente francês a introduzir os chamados Eurobonds desde o início – mobilizando assim capitais de mercados internacionais para obras de desenvolvimento. Uma testemunha desta conversa (um colega meu e que nessa altura era acessor de Delors) descreveu-me a seguinte diafonia: depois de ouvir os argumentos de Delors por 40 minutos a favor dos Eurobonds para o desenvolvimento, Miterrand pensou um pouco e, depois de 5 minutos em silêncio, disse: “Jacques, tem toda a razão. É exactamento isso que precisamos para assegurar a moeda única. Mas não o iremos fazer. É que, Helmut (referindo-se ao chenceler alemão Kohl) e eu podemos ter a força política de “ligar” os nossos países monetariamente mas, infelizmente, não temos o poder de criar um débito comun. Mas não te preocupes, Jacques. Quando, daqui a 10, 15 anos, existir uma enorme crise, os políticos que se encontrarem na nossa situação enfretarão um grande dilema: ou fazem aquilo que não fazemos hoje, isto é, aquilo que estás a sugerir; ou deixarão que a Eurozona se dissolva.

Ambos Miterrand e Delors acreditavam verdadeiramente que a situação se apresentava deste modo. Que, quando chegasse a altura, os líderes europeus iriam fazer o que fosse necessário. Muitos ainda preferem pensar assim. Os que veêm a criação do Mecanismo de Estabilidade Europeia (ESM, European Stability Mechanism), as recentes jogadas do Banco Central Europeu, a extensão do empréstimo à Grécia, acreditam que a Europa está lenta, mas firmemente, a imitar os Estados Unidos e assim, através de crises e erros, a avançar no sentido da consolidação. Gostaria que assim fosse. No entanto, não devemos tomar tais factos por garantido. Na minha opinião, o que está a contecer é exactamente o oposto. A Europa está a dissolver-se lentamente. Miterrand tinha razão ao dizer que os seus sucessores teriam de enfrentar um dilema terrível, mas estava errado ao preconizar o que os mesmos decidiriam: é muito provável que tais decisões conduzirão a soluções que, não só vão contra aquilo que Delors advocava, como levarão à dissolução da Europa e, inevitavelmente, do ideal europeu.

Miterrand foi, definitivamente, profético. Mas não foi o único. Nicholas Kaldor, professor de economia em Cambridge durante muitos anos e particularmente pro-europeu, escreveu, em 1971, o seguinte, acerca do impacto que a criação de uma moeda única teria para a Europa sem primeiro ter as ferramentas necessárias para garantir um certo nível de consolidação política (ferramentas tais como aquelas que Delors propôs a Miterrand):

“… é um erro perigoso para alguém acreditar que uma união monetária e económica possa pre-existir sem uma união política ou que possa funcionar (usando a terminologia do Relatório Werner) ‘como o fermento para o desenvolvimento de uma união política sem o qual a mesma não poderia funcionar a longo termo’. Porque, se a criação de uma união monetária, com a supervisão comunitária dos orçamentos nacionais, criar uma pressão tal capaz de colapsar o sistema por inteiro então, tal união monetária impedirá, em vez de promover, uma consolidação política.”

Quem pensa que foi o mais profético? Pessoalmente, por muito tempo pensei que o mais profético fosse o Miterrand. Mas agora, seguindo de perto a farça das cimeiras europeias, inclino-me mais na direcção de Kaldor.

 

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