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October 31, 2012
October 31, 2012

A Aurora Dourada e o silêncio ensurdecedor da Europa

Author: Jerome Roos Translator: Vera Pinheiro
Source: RoAR  Category: Antifascism
This article is also available in: elenesfr
A Aurora Dourada e o silêncio ensurdecedor da Europa

Com o partido Neo-Nazi a impor-se na Grécia, parece que mesmo um cenário ao estilo de Weimar poderá ser tolerável para os líderes da UE que insistem numa austeridade crescente.

“Pela Paz, Liberdade e Democracia. Fascismo nunca mais. Milhões de mortos fazem-nos lembrar”. Estas são as palavras inscritas na lápide por baixo da casa austriaca onde Adolf Hitler nasceu em 1889. “Nunca mais”. Este foi o slogan que ressoou uniformemente por toda a Europa quando, na sequência da Segunda Guerra Mundial, o horror cometido pelos Nazis foi dado a conhecer na sua plenitude. O projecto cosmopolitano da integração europeia foi fundado nessa mesma promessa. Os fascistas e os belicistas nunca mais seriam permitidos a despedaçarem o Velho Continente e o seu povo.

Assim sendo pode ser que esta venha a ser uma das maiores ironias da História: o facto de, os mesmos líderes da UE que estavam tão ocupados a decidir quem iria ganhar o seu Prémio Nobel da Paz pelo “progresso da paz e reconciliação, democracia e direitos humanos” foram os mesmos que se remeteram a um lamentável silêncio quando um inquérito recente indicou que o partido Neo-Nazi Aurora Dourada ocupa agora o terceiro posto partidário na Grécia, com 14% dos votos – um resultado comparável àquele obtido pelo Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães líderado por Hitler em 1930, três anos antes da ascenção do mesmo ao poder e deste encaminhar o mundo para a Segunda Guerra Mundial.

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Imagem : membros da Aurora Dourada com o líder partidário Nikolaos Michaloliakos (à frente à esquerda)

Por motivos de clareza: a comparação entre o Socialismo Nacional e a Aurora Dourada não é de modo algum um exagero. Estamos a falar de uma organização de extrema direita cujo emblema se assemelhe deliberadamente a uma cruz suástica; cujo líder utilizou publicamente a salutação Nazi quando foi eleito no Parlamento; cuja revista publica regularmente artigos e fotografias do próprio Führer; cujo porta-voz agrediu recentemente duas mulheres do partido rival num programa de televisão ao vivo; cujo manifesto se compromete a expulsar todos os imigrantes dos hospitais e colocar todas as crianças não-gregas fora dos jardins de infância; e cujos membros parlamentares participam activamente em ataques racistas [pogroms] contra a população imigrante grega. (Ah, e já agora, a banda preferida da Aurora Dourada chama-se Pogrom, conhecida por êxitos musicais tais como “Auschwitz” e “Speak Greek Or Die” (“fala grego ou morre”). E como por azar, o antigo baixista da banda faz agora parte dos 18 membros parlamentares da Aurora Dourada.)

Não é de admirar, então, que mesmo a educada BBC esteja a fazer estranhas comparações com os primeiros dias de austeridade levadas a cabo pela República de Weimar. Está a acontecer outra vez. O fascismo está novamente a impor-se na Europa. E o que é que os líderes da UE têm a dizer acerca deste assunto? Aparentemente, nada. Enquanto a milicia Neo-Nazi corre descontroladamente nas ruas de Atenas, Bruxelas e Berlim remetem-se a um silêncio ensurdecedor. A única preocupação que parece ocupar os líderes europeus é se a Grécia paga as suas dívidas. Valores como a democracia, direitos humanos e o Estado de direito foram delegados para um plano secundário – enquanto servir interesses financeiros, até um forte sabor de fascimo parece ser tolerável.

Na segunda-feira, o porta-voz da Chanceller alemã Angela Merkel disse aos jornalistas que o cancelamento da dívida grega seria uma “violação” da lei de orçamento alemã. Mas, quando o jornal The Guardian publicou uma reportagem arrepiante acerca de quarenta activistas anti-fascitas torturados pela policia na prisão – com alguns a serem espancados ao ponto de apresentarem hematomas graves e ossos partidos e outros a serem forçados a despir-se, dobrar-se e afastar as suas nadegas enquanto recitavam slogans fascistas para os seus camaradas – não houve nenhum oficial europeu que se preocupasse o suficiente para declarar que tais actos são uma “violação” do terceiro artigo da Convenção Europeia dos Direitos Humanos, que proibe a tortura.

De facto, os líderes europeus não poderiam importar-se menos. Em Maio, José Manuel Durão Barroso, Presidente da Comissão Europeia, questionou publicamente o rótulo do partido Neo-Nazi Aurora Dourada, declinando convenientemente qualquer forma de responsabilidade ao declarar vagamente que “temos de definir o que um partido Neo-Nazi representa, o que pode apenas ser feito a nível nacional”. Quando um sénior da polícia grega confirmou este fim-de-semana que o governo grego permitiu de bom grado que “punhados de fascistas” fossem inflitrados na força policial para que pudessem “usá-la para os seus próprios propósitos”, Barroso – juntamente com todo o estabelecimento europeu – preferiu fazer-se de parvo e continuar com a sua cabeça firmemente enfiada na areia.

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Imagem : duas capas da revista oficial do partido Aurora Dourada. Ainda ssim, o Presidente da Comissão Europeia refuta definir a Aurora Dourada como um partido ‘Neo-Nazi’.

Até agora, a única pessoa que prometeu investigar a Aurora Dourada foi o Comissário dos Direitos Humanos, Nils Muižnieks, mas a sua comissão faz parte do Conselho da Europa, um tigre de papel independente e com base em Estrasburgo completamente separado da UE. Além disso, a proposta da comissão foi completamente descreditada quando, no dia 1 de Outubro, Eleni Zarouli, membro parlamentar do partido Aurora Dourada, se juntou à Comissão de Igualdade e Não-Descriminação da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa. Umas semanas depois, no dia 18 de Outurbo, Zaroulia fez uma declaração no Parlamento grego em como os “imigrantes são subhumanos”. Viva a igualdade e a não-descriminação!

Mas a crescente afirmação da Aurora Dourada dentro das instituções talvez seja um dos problemas menores da Grécia. A sua presença nas ruas e a sua infiltração na força policial representam as maiores causas de preocupação. Em Agosto, na sequência do assassinato racista de um rapaz iraquiano de 19 anos, a Associação de Trabalhadores Migrantes denunciou mais de 500 ataques de ódio ocorridos apenas nos seis meses precedentes. Um relatório da semana passada confirmou que mais de metade destes ataques foram perpetuados por grupos organizados de homens em uniformes paramilitares – uma das imagens de marca das tropas de assalto da Aurora Dourada Sturmabteilung [originalmente denominadas “Secção Tempestade” pelo Partido Nazi]. Os números apresentados provavelmente representarão apenas a ponta do icebergue, já que a maioria das vitimas pode muito bem estar simplesmente demasiado aterrorizada para denunciar tais abusos e violência.

No início deste mês, o membro parlamentar da Aurora Dourada Ilias Panayiotaros foi apanhado num vídeo como fazendo parte de ataques organizados num teatro, lançando insultos homofóbicos ao director de uma peça de teatro crítica, espancando protestantes anti-fascitas que tentavam proteger o teatro e um jornalista que estava a tentar fazer o seu trabalho, e finalmente libertando um colega fascita de uma carrinha da polícia. Durante todo este tempo, os oficiais de polícia aguardaram e nada fizeram. Não admira: a Aurora Dourada declara orgulhosamente ter “60% de suporte” entre a força policial. Os oficiais não só ignoram deliberadamente queixas criminais e chamadas de emergência provenientes de imigrantes e activitas; como também é bem conhecido o seu empenho em referir activamente gregos que têm “problemas” com imigrantes à Aurora Dourada. Enquanto o Estado grego vacila sob o peso das suas dívidas, a Aurora Dourada avança para preencher o vazio.

Nunca mais, costumávamos dizer. Nunca mais. Quanto mais flagrante tem que se tornar a situação para que a Europa ao menos expresse a sua preocupação e admita que o problema existe? Como é que é possivel que um laureato ao Nobel da Paz simplesmente ignore a crescente afirmação de elementos violentos do partido Neo-Nazi no seu meio? Talvez a resposta resida simplesmente no facto que os líderes europeus estão conscientes do quanto eles próprios estão implicados na afirmação da Aurora Dourada. Talvez eles prefiram permanecer silenciosos porque eles sabem que admitir o ressurgimento do fascismo no continente pode severamente complicar a agenda da austeridade que eles mesmos impregnam à periferia europeia. Talvez, então, mesmo um forte sabor a fascismo possa ser tolerável – desde que a Grécia continue a pagar a sua dívida…

 

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