Saturday 19th October 2019
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July 2, 2013
July 2, 2013

Brasil: A revolução do vinagre

Author: Virgy Romo Translator: Mariana Gonçalves
Category: Protest
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Brasil: A revolução do vinagre

Não é por 20 centavos, “nem por 40 já que é ida e volta”, como muitos brincam. É a gota que faltava pra trasbordar o copo. Um país onde o salário mínimo é 678 reais e que não oscila em seguir aumentando o custo de vida. Um país que brinca com os números das estatísticas para dizer que a educação está melhorando, enquanto na realidade não há mudanças. Um país que é possível ver a notícia de que uma mulher morre por receber café intravenoso em vez de soro, em que esperar horas e horas numa sala de espera de um hospital se retorcendo de dor sem receber nenhum tipo de atendimento, é o normal.

Sim, perfeito, o Brasil vai receber a copa do mundo, mas, como dizia o cartaz de um manifestante “Genial, já temos estádios como os de primeiro mundo, agora podemos ter saúde e educação?”. E, sejamos honestos, não é criticável que o povo se queixe pelo governo estar investindo mais em uns jogos de futebol do que nestas questões. Os habitantes do Rio estão fartos de que a cidade seja governada pensando apenas nos gringos, e não neles.

A monopolização dos meios de comunicação. A corrupção… uma historia que não tem fim. Não, não acredito que seja pela falta de motivos que os cidadãos saem às ruas exigindo mudanças.

E as manifestações acontecem neste clima, em todas as cidades está se repetindo mais ou menos o mesmo padrão: passeata pacífica de algumas horas e no final, confronto entre polícia e manifestantes.

Essa é uma forma fácil de resumir os acontecimentos. Vou me aproveitar da minha experiência em algumas manifestações no Rio de Janeiro e Niterói, para explicar como se está vivendo aqui. Preparar-se para ir a uma manifestação implica todo um ritual. Parecia que íamos praticar algum tipo de esporte. Não é aconselhável ir com qualquer roupa, é melhor que seja cômoda e com um calçado que te permita correr. É preciso levar um pano com vinagre para anular o efeito do gás lacrimogêneo. E isso virou algo curioso nesta historia: se a polícia te descobrisse com uma garrafa de vinagre, você corria o risco de ser detido. Assim, popularmente se fala do movimento como a “revolução do vinagre”.

No meu primeiro dia nas manifestações, 17 de junho, havia cerca de meio milhão de pessoas, a primeira sensação foi algo muito parecido à agorafobia. No entanto, não demorei em entrar no espírito das manifestações. Milhares de cartazes expressando queixas. Eram várias horas de passeata pacífica, cantando letras sobre os descontentamentos. Nas janelas dos edifícios luzes se acendiam e apagavam como forma de apoio ao movimento; papéis eram jogados destas e voavam acima das nossas cabeças. Eram imagens lindas.

Era um momento no qual a força do povo te comovia.

Era impossível ver o principio ou o fim da manifestação, mas através do boca a boca e da tecnologia, a notícia de que vários edifícios simbólicos estavam sendo queimados começou a se espalhar no Rio. Soubemos que o congresso havia sido tomado em Brasília. Nasceu certa inquietação, não sabíamos o que estava acontecendo. De repente, o grupo que estava à frente deu a volta, começou a correr e gritar. O terror tomou conta de todo mundo. O primeiro instinto foi correr também. Essa era uma péssima ideia: quem caísse seria pisoteado pela multidão. Momentos como este aconteceriam de forma frequente, logo aprendemos que o melhor era ir um pouco separado da massa, paralelos a parede onde era possível se resguardar em casos como estes.

É curioso lembrar que nesse dia cheguei a desejar que a polícia agisse porque não suportava ver como alguns indivíduos destruíam edifícios, queimavam carros e assaltavam lojas. Uma vez mais, não entendíamos o que estava acontecendo. No dia seguinte escutei uma manifestante que se queixava de como os meios de comunicação dividiam os manifestantes em dois grupos: os pacíficos e os vândalos. Enquanto ela dizia que não, que todos faziam parte do mesmo movimento. Não se considerada vândala, e sim revolucionária. É que do seu ponto de vista é legitimo queimar alguns edifícios simbólicos já que parece ser a única maneira de ser escutados. Alega que o ano passado a maioria das universidades públicas do Brasil entraram em greve durante vários meses pedindo mudanças, foi um movimento pacífico que não teve repercussões. Sem dúvida, isto nos convida a pensar “será que cabe a violência para poder ser escutados?”. Porém, parece existir uma diferença entre os “revolucionários” e os “vândalos” que se aproveitam da confusão para assaltar. É um assunto delicado. Outra desagregação da massa.

Não sabia que três dias depois, a situação se complicaria ainda mais.

No dia seguinte, ao mesmo tempo em que participava na manifestação de Niterói, prefeitos e governadores se reuniram com a presidente Dilma Rousseff para discutir a redução do aumento das passagens. E durante a manifestação em Niterói, houve o pronunciamento, em São Paulo, do prefeito Fernando Haddad, junto ao governador Geraldo Alckmin revogando o aumento da passagem. Logo depois o prefeito do Rio, Eduardo Paes, também se pronunciou. Se anulam os 20 centavos, o povo grita de alegria; no entanto, o movimento continua, não é só por isso que se está lutando.

Chegou o dia 20 de junho, era fácil sentir a tensão no ambiente, é que esse dia não será fácil de apagar da memória dos que estavam na manifestação. Foi numa das maiores avenidas da cidade de Rio, estava repleta de gente. Uma imagem bastante impactante. Desde o princípio havia algo de diferente, já haviam conseguido uma pequena vitória com a redução das tarifas de ônibus, e agora cada grupo reivindicava uma coisa, embora não tenha sido isso o que fez esse dia histórico.

A manifestação mal havia acabado quando o caos e o terror se instauraram por toda cidade entre os manifestantes e os que nem sequer estavam nela, porque desta vez a polícia não fez distinção entre pacíficos e vândalos.

Vimos como grande parte da massa estava retrocedendo em peso, com panos na cara, sinal de que o gás havia sido lançado. As meninas e eu ficamos paralisadas numa esquina.

Não sabíamos o que fazer. Todas as ruas estavam abarrotadas de gente que corriam de um lado para outro.

Ficamos nessa esquina com a esperança de que a confusão passasse. Que ingenuidade a nossa! As bombas de efeito moral já estavam muito perto e o fluxo de gente ainda era incrível, já se podia escutar perfeitamente os disparos da polícia. Nos olhamos espantadas e dissemos que tínhamos que sair dali antes de ficarmos encurraladas. Começamos a andar depressa seguindo a parede, como já havíamos aprendido. Tive que parar porque haviam soltado muito gás lacrimogêneo, meus olhos ardiam muito, não podia abri-los. Uma mão me agarrou e me tirou dali. Andei vários metros sem saber pra onde estava indo. O som dos disparos estava cada vez mais perto, era impossível recuperar a calma. Chegamos à entrada de um metrô, e sem sequer decidir, um grupo de pessoas nos empurrou para dentro.

As grades estavam fechadas, uma vez que você entrasse ali não havia por onde sair. Nos preocupamos, será que os policiais se atreveriam entrar ali? Alguns, mortos de medo, desceram até a boca do metrô, que por sinal, não estava funcionando. Decidimos sentar nas escadas até que a confusão lá fora passasse. Não nos acomodamos quando umas explosões vieram de dentro do metrô. Evidentemente, todo mundo que estava ali dentro saiu correndo apavorado até chegar às escadas onde muitos esperávamos. Novamente, quase fomos esmagados. O desespero tomou conta de todos nós, ninguém se sentia seguro ali. A avalanche contra as grades deu resultado e conseguiram abrir-las. Saímos todos a empurrões. Mais gás. E volto a não enxergar nada.

Temos sorte, há um ônibus parado no meio do caos que nos abre a porta, e mesmo sem ir para Niterói, nossa cidade, o pegamos sem nos importar.

Chegamos em casa e soubemos que a situação no Rio estava ainda pior depois que conseguimos sair. O facebook não parava de se atualizar com histórias realmente aterrorizantes. A “Globo”, a rede de televisão mais importante do Brasil, passava as manifestações de todas as grandes capitais, menos do Rio. Isso é um péssimo sinal. O que está acontecendo?

Não houve apenas feridos com balas de borracha, como também com balas de fogo. Todo mundo tinha amigos que estavam perdidos no meio da confusão e cuja situação se desconhecia. Muitos essa noite não puderam voltar para casa, outro tiveram que dar voltas por cidade distantes para poder voltar.

Por que os meios de transportes não funcionaram? Isso nunca havia acontecido. Soubemos que foi a polícia quem soltou as bombas no metrô, soubemos que também entraram num hospital que soltaram spray de pimenta, abordaram grande parte da cidade, e em algumas zonas acabaram com a luz para provocar mais terror. A sensação de sofrer uma emboscada da polícia foi compartilhada entre todos os que estivemos ali. O governador, Sérgio Cabral, se desentende dizendo que a polícia atuou por conta própria.
Era um grande pesadelo. Um sonho horrível, mas todos tínhamos uma convicção: uma vez que chegássemos em casa, estávamos a salvo. O que põe sobre a mesa uma velha questão: como a polícia atua diariamente nas favelas, com armas de fogo e sem recursos como os nossos para registrar o que acontece ali.

Por outro lado, não cessam os rumores sobre um possível golpe de estado. É que a história não parece ser muito diferente da que teve umas décadas atrás quando a ditadura foi instaurada.

Assim, muitos manifestantes (a maioria estudantes) deixam momentaneamente as ruas para se reunir e tentar chegar a um consenso sobre como devem atuar diante a estes acontecimentos: uma polícia que vez de proporcionar segurança, semeia medo; partidos e empresas que tentam tirar proveito da situação; um povo que demonstra ter força, mas não um objetivo comum.

Depois de uma semana mais tranquila, mais diálogo que ação. As manifestações continuaram, mas com menos força. Muitos passaram muito medo para voltar a sair às ruas.

Outros se cansaram de ver o povo gritando por razões tão diversas, muitas vezes sem conexão. Será que o povo conseguirá se antepor a esses medos, a essa dificuldade de encontrar um foco comum? Até onde este movimento irá? Conseguirá alguma repercussão a nível legislativo?

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