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April 19, 2013
April 19, 2013

O estudante que colocou a teoria dos cortes no ridículo

Author: Manuel Ángel Méndez Translator: Vera Pinheiro
Source: Gizmodo  Category: On the crisis
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O estudante que colocou a teoria dos cortes no ridículo

Photo: Getty Images

Se ainda não leu a história, tem que fazê-lo. Há uns dias para cá que a contamos por estas bandas: um dos estudos constantemente citados por políticos e economistas como base para desenhar as suas políticas de corte e austeridade – “o crescimento em tempo de dívida” (Growth in a Time of Debt), publicado em 2010, está errado. E tudo por causa de um erro numa fórmula de Excel. Um erro que serviu para justificar em boa parte os cortes radicais na educação, saúde e salários em meio mundo. Um estudante de economia de 28 anos, Thomas Herndon, foi quem descobriu o erro.

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Herndon tornou-se famoso esta semana. O seu trabalho de tese de doutoramento intitulado “Será uma alta dívida pública capaz de sufocar o crescimento económico de forma consistente? Uma crítica a Reinhart e Rogoff” (Does High Public Debt Consistently Stifle Economic Growth? A Critique of Reinhart and Rogoff), publicado conjutamente com os professores da Universidade de Massachussets, provou que o relatório dos prestigiados economistas de Harvard Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff estava errado. Os próprios autores, Renhart e Rogoff, não tiveram outro remédio que reconher o erro. E tudo por causa de um erro numa fórmula matemática. Um erro que, do nada, esbofeteia aqueles que defendem a eficácia dos cortes de orçamento para reduzir a dívida pública e regenerar o crescimento económico.

Herndon explica que decidiu analizar a teoria de Reinhart e Rogoff por esta ter sido uma das mais influentes nos últimos anos na justificação das teorias de austeridade. Entrou em contacto diversas vezes com os prestigiados economistas para pedir-lhes dados, mas sem qualquer êxito. Ignoraram-no durante semanas. Um dia, Carmen Reinhart escreveu-lhe dizendo que não tivera tempo para analisar a sua petição, mas que lhe enviava os dados. O mesmo poderia fazer o que quisesse com os resultados. E assim fez.

O modelo económico que constava na folha Excel de Carmen concluia, entre outras coisas, que os países cuja dívida excede 90% do PIB experimentavam uma menor taxa de crescimento em comparação com os países com um nível de dívida inferior. A solução seria então cortar, cortar e cortar. Ou não. Porque, tal como Herndon descobriu, a mesma conclusão dos 90% baseia-se num erro de cálculo.

“Cliquei na célula L51 e vi que continha apenas as colunas 30 a 44, em vez das 30 a 49”, explica. Mais, Reinhart e Rogoff teriam excluido dados referentes ao Canadá, Nova Zelândia e Austrália, países que experenciaram períodos de alto crescimento económico apesar da sua elevada dívida.

Ao início, nem os próprios professores de Herndon acreditavam nele. Mas este estava correcto. Tanto que Reinhart e Rogoff acabaram por admitir o seu erro embaraçoso esta semana no WSJ – embora continuem a afirmar a validade das suas conclusões.

Herdnon explica que não analizou o relatório de 2010 de modo malicioso nem com o intuito de expôr ou ridicularizar os seus autores. Fê-lo apenas porque, como milhões de pessoas, tinha a sensação que os cortes até então introduzidos em dezenas de países, desde a Grécia e Espanha aos EUA, eram na realidade contraproducentes.

No final, esta história vem comprovar uma coisa: muitas vezes, quando os políticos tomam uma decisão, é-lhes igual que a realidade lhes diga que se vão equivocar. Se não existem provas que creditem a sua decisão, pedirão a alguém que as fabrique. Alguém se lembra do famoso “relatório” acerca das armas de destruição massissa existentes no Iraque? Exactamente.

Mesmo tendo em conta a distância temporal, deparamo-nos com a mesma situação. E o pior são sempre as consequências: desta vez, cinco anos (sem falar dos que ainda estão para vir) de cortes brutais que afectaram e ainda afectam milhões de pessoas em todo o mundo.

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